ARTE. Embora pareça ter sido lançado a princípio mais próximo à seara do divertimento e da sátira social, o romance é, sobremodo depois da leitura de Antonio Candido em "Dialética da malandragem", uma das pedras de toque para pensar a cultura nacional. Mais estruturado do que como o lê a maioria dos leitores, como também extremamente divertido, vencidas as dificuldades da linguagem, trata-se de uma leitura obrigatória da nossa literatura.
A proposta deste blog é relativamente simples: responder à pergunta do título com o intuito de eventualmente atalhar o caminho do espectador (filme), leitor (livro) ou ouvinte (CD). Os comentários a fim de multiplicar as impressões são muito bem-vindos e a divisão um tanto ríspida "ARTE"/"ENTRETENIMENTO" relaciona-se a uma expectativa de recepção e não à qualidade em si das obras comentadas.
sábado, 8 de março de 2014
Fala, amendoeira, Carlos Drummond de Andrade, 1957
ARTE. Primeiro livro de crônicas do maior poeta brasileiro do século XX, é de leitura deliciosa e ao mesmo tempo dá vida aos entraves e delícias da vida no Rio de Janeiro dos anos 50. Como esperado, temos ainda a sensibilidade poética de Drummond agindo no olhar e na palavra. Livro imperdível para quem gosta de boas leituras!
domingo, 2 de março de 2014
Linha de Passe, Walter Salles & Daniela Thomas, 2012
ARTE. De maneira muito sensível, o filme representa a história de uma família da periferia paulistana. A maneira como as história se entrelaçam e a agudeza com que os diretores escolheram as temáticas, os ângulos e o desenvolvimento do enredo fazem deste filme uma produção muito acima da média do cinema nacional. Nota importante para a atuação consistente de todos e para o desfecho inteligente e impactante.
12 anos de escravidão (12 years, a slave), Steve McQueen, 2013
ARTE. O filme é muito bem filmado, ótimos atores, boa história e não permite a catarse fácil do público meio preparado, meio culpado (ao não reduzir à questão a oposições simplórias), ao menos até a última cena. O retorno choroso à família, o neto com o nome do vô, o abraço conjunto e a frase final quase me levaram a pensar que é pensar que é um filme meio cretino. Frase final: "there is nothing to forgive". Vale assistir para se ver como um filme excelente pode ser estragado na última cena.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Antes que tu conte outra, Apanhador Só, 2013
ARTE. Um álbum de música muito agudo, inteligente e representativo de algumas tensões importantes doa atual cenário brasileiro. Certamente vale a audição para conferir como o grupo se desenvolveu esteticamente para conseguir uma sonoridade bastante rica, com letras que ampliaram seu alcance e sofisticaram-se poeticamente. Desenvolvi melhor as reflexões no caderno Cultura da Zero Hora - republicadas neste blog. Vale cada segundo de seu tempo a audição deste álbum!
2 dias em Nova Iork (2 days in New York), Julie Delpy, 2012
ENTRETENIMENTO. É sempre bom ver a charmosa Julie Delpy atuando. Também vale a pena Chris Rock, quando o roteiro é consistente. É quase isso o que encontramos neste filme. Oscilam algumas cenas bastante engraçadas, sobretudo nas aclimatações ou não aclimatações da família francesa em Nova Iorque, com algumas cenas mais insossas, e até desnecessárias. Não se sai ludibriado nem recompensado do filme.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Janela da alma, João Jardim & Walter Carvalho, 2001
ARTE. Um bom documentário a respeito de como entendemos o mundo a partir da visão. Alguns dos entrevistados dizem coisas valiosíssimas sobre a importância da visão, a existência das diferentes visões, os preconceitos contra aqueles que sofrem de algum tipo de desvio da visão etc. Entre o físico, o metafísico e o filosófico o documentário se coloca e nutre-se de uma variada gama de reflexões. Vale atenção!
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Melhores coisas (Better things), Duane Hopkins, 2008
ARTE. Um filme impressionante sobre as parcas possibilidades da população pobre em um país de "primeiro mundo". Permeado pelas drogas, a heroína principalmente - um dos motes do filme é a morte por overdose de uma jovem -, adolescentes e idosos interagem num ambiente de marasmo e mais imagens do que linguagem. O tom azul da fotografia ajuda a construir o cenário oprimido e da busca acuada de saídas. Vale conferir.
Brejo das almas, Carlos Drummond de Andrade, 1934
ARTE. Segundo livro do maior poeta brasileiro de todos os tempos - não por preferência pessoal, mas por fato -, impressiona pela qualidade e por já trazer alguns traços que vão construir ao menos a primeira parte da poética de Drummond. Com poemas clássicos como "Soneto da perdida esperança", "Carlos, não se mate" e "Hino nacional", vale completamente a leitura - o que não significa dizer que contenha somente poemas irretocáveis. Um bom exemplo da poesia como a luta pela expressão perene.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Philomena, Stephen Frears, 2013
ARTE. Dentre os filmes que concorrem ao Oscar deste ano, é certamente o que trabalha com o maior grau de sutileza. Na história da mãe que sai em busca de seu filho depois de cinquenta anos, com a ajuda de um jornalista atribulado por um recente infortúnio, nada toma o caminho fácil e muito poucas respostas são dadas conforme gostaríamos. Nota para a atuação muito inteligente de Judi Dench e para a forma peculiar com que é construída a relação entre a mãe e o repórter.
G. I. Joe: Retaliação (G. I. Joe: Retaliation), Jon M. Chu, 2013
ENTRETENIMENTO. Para além do fato de que esses brinquedinhos simbolizam a capacidade (talvez caduca) de os EUA ter domínio militar sobre todo o território global, o filme é um lixo. O enredo alterna lacunas e clichés, as atuações são canastronas e os efeitos não valem seu tempo. Eis um exemplo do quanto parte do cinema voltou a ser simples demonstração de tecnologia e entretenimento pueril - nos termos de Ismail Xavier. (Não consegui assistir mais do que quinze minutos).
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Trapaça (American Hustle), David O. Russell, 2013
ENTRETENIMENTO-ARTE. Um interessante thriller em que acompanhamos, não linearmente, a história de um casal de trambiqueiros e suas relações concomitantes com a polícia e com o mundo do crime. Boas atuações - Christian Bale, Amy Adams e Jennifer Lawrence, sobretudo - e uma ambientação crível dos anos 70 são dois de seus acertos. O desfecho um tanto decepcionante, sua falha mais aparente. Vale ver, mas não vale rever.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Jogo de Cena, Eduardo Coutinho, 2007
ARTE. Dois espelhos em paralelo. É isso que o diretor Eduardo Coutinho conseguiu neste documentário. A proposto foi colocar mulheres para dizerem suas histórias num teatro vazio. Em seguida, convidou algumas atrizes para declamar o texto. O jogo formado entre ficção e realidade, entre crer e não crer, o imperativo da criação cotidiano de história; tudo isso está ali, com sensibilidade. Não estragarei as surpresas do espectador, mas é, sem dúvida, um dos melhores documentários já feitos.
A menina que roubava livros (The Book Thief), Brian Percival, 2013
ARTE. É impressionante como já se é possível cosmetizar uma das maiores fissuras da cultura moderna, que foi o nazismo. Do tratamento de imagem ao roteiro - que derruba bons atores como Geofrey Rush e Emily Watson -, todo o filme parece ser feito para espectadores ansiosos por uma catarse qualquer, por um momento de beleza qualquer. A cena em que um menino de doze anos morre no meio de um "eu te amo" para a protagonista arrancou um "ridículo!" meu, que sou normalmente quieto. Não li o livro, mas o filme não vale o teu tempo!
Breaking Bad, Vince Gilligan, 2008
ENTRETENIMENTO. Uma das melhores séries já feita, conta a história de um professor de química com câncer terminal que resolve "chutar o balde" e cozinhar anfetamina para pagar seu tratamento e deixar sua família em condição segura antes de morrer. Ótimas atuações, como a Bryan Cranston, e ousadias formais fazem com que valha a pena acompanhar os cinco anos da série.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (Bring me the head of Alfredo Garcia), Sam Peckinpah, 1974
ARTE. Talvez aqui a classificação entre arte e entretenimento oscile bastante. Considerado um filme cult, alguns fatores contribuem para isso: a aparência enganosa de filme rústico, a ambientação western anos 70, a atuação convincente de Warren Oats e o mote insólito - levar a cabeça de homem para uma quadrilha a fim de receber uma recompensa por isso. Vale cada segundo do tempo gasto e não à toa recebe muitas referências em filmes de diretores interessantes, como Tarantino.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
O jogo da amrelinha (Rayuela), Julio Cortázar, 1963
ARTE. Romance paradigmático de Julio Cortázar, tem por protagonista um jovem portenho no ambiente intelectual de Paris, na primeira parte, e de volta a Buenos Aires, na segunda. Bastante ousado formalmente, a maior ousadia é decerto a possibilidade de duas leituras, que esconde a possibilidade de infinitas leituras, subvertendo a ordem linear da forma romanesca. Cinquenta anos depois, e com o passar da juventude, talvez seja um romance que sofra um pouco de sua juvenilidade, mas segue valendo a leitura.
O poderoso chefão (The Godfather), Francis Ford Coppola, 1972
ARTE. Um dos maiores filmes da história, é ponto certo na memória cinematográfica de todo apaixonado pela sétima arte. Algumas expressões e frases permanecem para a vida, como: "ou tua assinatura ou teu cérebro estarão no contrato", "uma proposta irrecusável" ou "pediu, mas não me pediu com respeito". Trilha sonora esplêndida, duas ou três atuações irretocáveis, sequências e enquadramentos geniais, enfim, uma obra-prima!
Invocação do Mal (The conjuring), James Wan, 2013
ENTRETENIMENTO. Para quem gosta do gênero, eis um filme de terror que vale a pena ser visto por adultos, sem constrangimento. Seja pela história bem amarrada (decalcada em "fatos reais"), seja pela atuação dos atores - especialmente Lili Taylor -, o filme é capaz de provocar medo, mesmo nos corações mais intrépidos. E depois, talvez, aquele medo de deixar a porta entreaberta e não caber inteiro no colchão.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Ventos da liberdade (The Wind that Shakes the Baley), Ken Loach, 2006
ARTE. O filme mostra com bastante crueza o começo do processo da resistência irlandesa à invasão britânica, movimento que hoje parece apaziguado, mas há até bem pouco tempo ecoava nas ações do IRA. Notas para as necessárias refrações de um movimento revolucionário após conseguir o que gostaria, para a atuação de Cilian Murphy (que parece outro ator, longe das películas de Holywood) e para a possibilidade de representar a violência sem exotismo nem silenciamentos.
Jards Macalé, um morcego na porta principal, Marco Abujamra & João Pimentel, 2008
ARTE. Até onde conheço, o único documentário sobre uma das figuras mais peculiares da canção brasileira. Não formalmente muito bem resolvido, mas apresenta bem a complexidade da figura do compositor, bem como remonta com interesse o panorama dos anos 60 e 70 no quadro da cultura brasileira. Pra quem gosta do artista ou de canção, vale cada segundo do seu tempo.
Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, 2008
ARTE. Se as perguntas do diretor ao poeta desanimam um pouco pela obviedade ou superficialidade, valem a façanha de conseguir entrevistar Manoel de Barros sem ser por escritos, os vários depoimentos e impressões que surgem no documentário e os causos e particularidades da vida de um dos maiores poetas brasileiros vivos. Poesia e inteligência por mais de setenta minutos.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
A vida submarina, Ana Martins Marques, 2009
ARTE. Este é o primeiro livro de poemas da mais ou de uma das mais talentosas poetas de sua geração. Não tem aqui a sofisticação sintética do livro seguinte, Da arte das armadilhas (2012), mas já retribui com generosidade aos esforços do leitor para compreender as metáforas por meio de uma técnica de dar inveja em poetas de uma estrada mais longa. Poeta consistente desde a estreia, é muito provável que se constitua um dos nomes da poesia deste começo de século.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
O lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street), Martin Scorcese, 2013
ARTE. Há pelos menos dois traços de gênio neste filme de Scorcese. O primeiro, costumeiro para quem acompanha o diretor, é o ritmo excepcional impresso na "película". Neste caso, vem a calhar para representar a vida do escol milionário, que simplesmente passa por cima dos demais, com seus vícios e prazeres. A segunda genialidade, a forma com que o diretor é capaz de provocar comoção quanto ao destino do calhorda Jordan Belfort, representado talentosamente por Leonardo di Caprio. Filme obrigatório para quem gosta de cinema!
Anna Karenina (Anna Karenina), Joe Wright, 2012
ARTE. Embora seja normalmente malquisto analisar um filme pelo livro em que é baseado, o expectador encontrará aqui, no mínimo, as grandes frases, cenas e personagens de Tolstoi. Mais do que isso, houve escolha de uma estética bastante particular que ambienta o enredo, ora mais, ora menos, no que parece um enorme palco de teatro. Se eventualmente confere à Rússia uma natureza exótica não tão feliz, também reveste todo o filme de grande beleza visual.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Agentes do além (RIPD), Robert Schwentke, 2013
ENTRETENIMENTO. Não se deixe enganar pela presença do intermitente Jeff Bridges, ou pelos efeitos especiais que parecem um tanto bacanas no trailer do filme, RIPD são duas horas de sua vida jogadas quase completamente na lata de lixo. Salvo uma risada aqui e outra ali, o roteiro é bastante fraco, e mesmo as cenas de ação que poderiam valer pela adrenalina decepcionam com falta de timing ou visual pouco verossímil. Corra deste filme do além!
sábado, 25 de janeiro de 2014
Em nome da raça e da ciência, Estrasburgo 1941-1944 (In the name of race and of science, Strasburg, 1941-1944), Sonia Rolley, Axël Ramonet & Tancrède Ramonet, 2013
ARTE. Documentário inescapável para quem quer saber mais do que os chavões normalmente divulgados sobre o holocausto nazista. Trata-se da história do Dr. Hirt, anatomista e membro da SS responsável pelo assassinato de quase uma centena de judeus para colecionar partes de corpos. O filme também traça muito bem a intimidade de ciência e política no quadro do nacional-socialismo.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Amor em Middleton (Middleton), Adam Rodgers, 2013
ENTRETENIMENTO. Pra quem gosta de comédias românticas, talvez valha a pena acompanhar alguns dos motes de sempre, mas deslocados para pais de calouros universitários, interpretados por Andy Garcia e pela bela Vera Farmiga. A madureza dos protagonistas gera algumas questões interessantes, mas às vezes o filme de desenvolve estereotipadamente. Palmas especiais para a cena da aula de teatro, para algumas falas ao longo do filme, para a referência a Os guarda-chuvas do amor e para o desfecho não facilitado.
Ninfomaníaca, volume I (Nymphomaniac, vol. I), Lars von Trier, 2013
ARTE. Filme de um dos diretores mais interessantes cineastas de sua geração, Lars von Trier parece sempre buscar as questões profundas, os temas de cerne, em suas obras, com mais ou menos acerto. Neste longa, que conta com boas atuações de Uma Thurman, Stace Martin e ótima atuação de Charlotte Gainsbourg e Stellan Skarsgard, o diretor discute a possibilidade de constituição de uma moralidade quando se trata da sexualidade humana e acaba por estremecer pilares civilizacionais importantes. Não adianta exigir do filme uma linha condutora realista, mas sua estética grave e peculiar vale cada minuto. Imperdível para quem gosta de bom cinema.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Veludo azul (Blue velvet), David Lynch, 1986
ARTE. Não, não perde seu tempo. Neste filme já vemos algumas características que estarão presentes em Cidade dos Sonhos (2001) e que projetarão o diretor como um nome importante do cinema de arte. Uma fotografia de estranhamento, diálogos agudos, uma ótima trilha sonora e as atuações marcantes de Dennis Hopper e Dean Stockwell valem as duas horas de filme. Atenção para o jogo de espelhamentos construídos pela trama e a ambiência noir muito bem construída pelo diretor.
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